A falácia da mulher multitarefas

Por Rachel Sardinha – empresária e co-idealizadora do Projeto Cora

Mulheres fazem mil coisas ao mesmo tempo! Conseguem se concentrar em várias tarefas, cuidar da casa, dos filhos, do trabalho, do marido. Conseguem ser empresárias e donas de casa ao mesmo tempo. A esposa perfeita, mãe perfeita, chefe perfeita! Uau, não é mesmo? Como as mulheres conseguem ser multitarefas e os homens não?

Bem, não posso falar por todas as mulheres. Mas falo por mim. Não quero ser multitarefas. Não gosto de fazer várias coisas ao mesmo tempo. Ser multitarefas é perder o foco, fazer as coisas no automático sem conseguir me dedicar 100% para cada atividade.

Não sei se somos assim por costume, por criação, porque a sociedade rotula a mulher como multitarefa e crescemos pensando que é um orgulho poder fazer mil coisas ao mesmo tempo. Quantas mulheres não se identificam com a história da mulher que, pela manhã, pensou: “vou levar o lixo pra rua”, e no caminho catou as roupas das crianças no chão, atendeu o entregador de gás, respondeu dois e-mails de trabalho, guardou na geladeira o queijo que tinha ficado sobre a mesa e viu que a jarra de água estava vazia; foi encher e aproveitou para preencher a lista de compras, quando viu que tinha que fazer o almoço, cozinhou, serviu o almoço, limpou a mesa, limpou os filhos, conferiu se tinham feito as tarefas… e o lixo continua ali.

Mulheres, substituam a analogia acima pela rotina de vocês e verão que, mesmo que as histórias não sejam semelhantes, a carga de tarefas simultâneas é. E não precisa ser uma rotina de casa – pode ser o seu dia no trabalho, respondendo e-mails, mensagens no WhatsAPP que não têm mais hora para chegar (e exigem resposta imediata!), atendendo uma demanda urgente, e no final do dia aquele UM relatório importante que você precisava entregar continua ali, aberto, preenchido pela metade, pois com todas as tarefas que surgiram, não foi possível finalizá-lo.

Não me orgulho de (tentar) ser multitarefas. Sei que quando me dedico 100% para uma coisa, as outras ficarão temporariamente de lado, mas, nossa, aquela UMA coisa será, sim, perfeita. Terei orgulho do resultado final dela. Cada dia que me esforço para manter meu foco em uma coisa por vez me sinto mais produtiva. Aliás, dados de uma pesquisa da Universidade de Utah, nos EUA, mostram que somente 2,5% das pessoas (independente do gênero) conseguem fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo.

Como perder o hábito de ser multitarefas

Aprendi há alguns anos a classificar as atividades em um quadro entre:

  • Urgente e Importante;
  • Importante e Não-Urgente;
  • Urgente e Não-Importante;
  • Não-Urgente e Não-Importante.

Dividindo as tarefas dessa forma fica mais fácil saber por onde começar, quais tarefas me dedicar primeiro, o que precisa de atenção imediata e o que pode ser deixado para mais tarde – de forma que ainda assim seja executado com a atenção e o foco merecidos.

Esse quadro pode ser feito para o dia a dia da casa, do trabalho e até das atividades sociais. E não precisa ser impresso, desenhado na parede: vai depender do seu perfil. Eu costumo anotar na agenda todos os dias as atividades e marco o que precisa ser feito primeiro (Urgente e Importante).

Outra coisa que fiz foi desativar a maioria das notificações do meu celular. Deixei só as mensagens individuais de WhatsAPP (e mesmo assim, só como vibração, sem barulho), evitando perder o foco e a linha de raciocínio a cada nova notificação do aparelho.

É um desafio diário, constante (a vontade de checar o e-mail a cada cinco minutos ou conferir a tela do celular é grande), mas a satisfação de finalizar um trabalho para o qual sei que me dediquei 100% a ele é maior. E assim, dia a dia, vou me dedicando cada vez mais a uma vida “unitarefa”.

No Comments

Sorry, the comment form is closed at this time.