Para nós, o impossível não existe

“A única forma de chegar ao impossível é acreditar que é possível”, ouvi essa frase recentemente assistindo o filme “Alice através do Espelho”. Só depois, em uma daquelas noites de insônia, me dei conta que a minha vida foi pautada nesta frase.

Desde muito nova comecei a ditar os rumos da minha vida, independentemente do que os outros diziam ou do que era “normal” para a minha idade e gênero. Comecei a trabalhar com 14 anos porque queria ter a minha independência financeira. Queria comprar um computador e não ter mais que pedir dinheiro para o meu pai. Fiz de tudo um pouco, desde trabalhar em um laboratório até em uma locadora de carros. Sofri preconceito por minha idade e pelo fato de ser mulher, no entanto minha resposta sempre era a mesma: o meu melhor desempenho.

Quando fui para o segundo grau, cismei que deveria fazer a formação técnica de processamento de dados. Na época, a minha escola me dava as opções de administração e eletrônica, além daquela que eu queria. A indicação da escola era que eu fizesse administração, mas eu bati o pé e fiz todas as provas para ser aceita em processamento de dados, uma área ainda muito masculinizada. Dá pra perceber eu não fui pelo caminho da tecnologia, mas ela me abriu muitas portas.

No entanto, o meu sonho mesmo, desde pequena, era ser jornalista. Mas eu não sonhava com a bancada do Jornal Nacional. Sonhava em ser correspondente internacional. Por isso, me dediquei a estudar inglês como ninguém.

Quando chegou a época do vestibular, eu não passei para universidade pública e tive que escutar que seria impossível fazer uma faculdade particular. Se eu não tinha dinheiro teria que aceitar talvez não ir pra faculdade. Pois, mais uma vez, não me deixei abater e arrumei dois empregos e uma bolsa de estudos para alcançar o meu sonho. Não foi fácil. Eu já morava em Floripa e não tinha mais computador, por isso contava com a ajuda de amigos ou passava a noite na faculdade fazendo a minha monografia. Fazia freela de digitação e vendia doces para completar a renda.

Enquanto fazia a faculdade ainda tive que trocar um emprego ganhando mais, para ganhar menos em um estágio, pois era ali que eu iria aprender e começar a fazer o meu currículo. Essa escolha moldou a minha vida.

 

A gente se perde no caminho

Quando me formei, já era casada. Sim, casei nova e não recomendo. Foi aí que as coisas começaram a sair do script do meu sonho. Relaxei com o inglês, as demandas financeiras da vida e o fato de eu estar tão nova presa a um casamento me fizeram aos poucos esquecer do meu sonho de ser uma correspondente internacional. Claro que eu construí um outro caminho importante e ele foi fundamental para eu ser quem sou, porém acho que aí comecei a deixar a vida me levar.

Pulei de um casamento para o outro, tive filhos, as responsabilidades chegaram e os desafios passaram a ser maiores, como ter que fechar a conta no azul. Nesse caminho, encontrei pessoas que me fizeram soltar uma fagulha da ousadia que eu tinha quando era mais nova, me fizeram empreender, por exemplo. Porém, mais uma vez, a inexperiência e a falta de clareza me fizeram fracassar.

Mas uma coisa que acredito muito é em recomeçar. Acho que essa é uma capacidade que requer coragem e isso eu tinha de sobra. Afinal, estou no meu terceiro casamento. Eu nunca deixei que o medo me paralisasse. Acredite, eu tenho muitos medos, mas sempre tive uma fé inabalável e a capacidade de me jogar de cabeça apesar do medo.

Pois lá fui eu empreender de novo. Dessa vez, o que me derrubou foi o trem da vida. A vida louca e estressada que eu levava, sem olhar pra mim, sem sequer perceber se eu respirava. Aceitando todo o estresse que chegava em mim e cultivando ele como se fosse uma animalzinho de estimação. E aí veio o câncer.

Ele chegou no susto, mas mais uma vez eu tive a prova de que a coragem é um valor que está arraigado em mim. Eu simplesmente arregacei as mangas e corri atrás do que era preciso para resolver o “problema”. Sem choro, sem vitimismo, sem perguntar o “porquê”. E me curei.

Depois disso passei por uma série de provações, mas o quero ressaltar é que durante a doença, apesar de eu não ter perguntado o “porquê”, não fiz o que era mais importante: perguntar o “pra quê”.

Quatro anos se passaram desde a doença e somente há pouco tempo comecei a me questionar qual era o meu propósito. O que eu precisava fazer para sair de uma vida “na média” para ter uma vida extraordinária. Para ver a felicidade nas pequenas coisas, acreditar mais em mim, recuperar aquela Samantha sonhadora e, principalmente, desafiadora que fazia o que queria não importasse os obstáculos.

Recentemente, eu lembrei quem eu realmente era. Voltei a acreditar no impossível e comecei a perceber a oportunidade e o aprendizado em cada conversa, em cada leitura, em cada filme.

Hoje tenho clareza dos meus objetivos, do meu propósito. Pode ser que eles mudem a medida que eu os alcance ou que o tempo passe. Mas tudo bem. A vida é assim, não é imutável, está sempre em movimento. O que importa mesmo é saber quem eu sou e pra onde vou. Por que quando você não sabe pra onde vai, qualquer caminho serve.